Design
Google Analytics para Product Designers: como definir e propor eventos no handoff de projeto
7 minutos de leitura
Em um projeto de design de produto, quando estamos finalizando a etapa de prototipação e preparando o handoff para o desenvolvimento, é comum dedicarmos nossa atenção a aspectos visuais e funcionais, algumas vezes deixando de lado processos estratégicos. Um desses entregáveis igualmente importantes, e que muitas vezes acaba ficando em segundo plano, é o tagueamento.
O objetivo deste texto é refletir sobre essa prática no momento de entrega do projeto, analisando de forma detalhada a estrutura de um evento no Google Analytics 4, além de apresentar boas práticas e métodos para disponibilizar esse entregável ao time de desenvolvimento.
Primeiramente, o que é Tagueamento?
É chamado Tagueamento o processo de configurar um site ou aplicativo para coletar dados sobre as interações dos usuários. Isso é feito geralmente criando Tags (fragmentos de código) através de um gerenciador como o Google Tag Manager (GTM). Essas tags são configuradas para enviar eventos para uma ferramenta de análise, sendo o Google Analytics 4 (GA4) a mais utilizada atualmente.
Evento é como chamamos o dado responsável por capturar comportamentos de interação, como cliques, visualizações de página e outras ações específicas, como produtos comprados ou visualizados e planos adquiridos. Uma vez captados e enviados ao Analytics, podemos interpretá-los e transformá-los em relatórios que auxiliarão a análise do produto e futuras tomadas de decisões.
A configuração de um evento pode variar de acordo com os objetivos e o tipo de insights que desejamos obter dos usuários. Entender os diferentes tipos de eventos facilita sua aplicação e amplia nossa capacidade de leitura sobre a experiência como um todo.
Os tipos de eventos
Os eventos podem ser classificados em quatro grupos, sendo eles:
Eventos Coletados Automaticamente: São eventos padrão que o Google Analytics coleta quando o código-base é instalado, sem a necessidade de configuração adicional. Exemplos: visualizações de página e início de sessão.
Eventos de Medição Otimizada: Semelhante ao exemplo anterior, são coletados automaticamente, mas podem ser ativados ou desativados nas configurações do GA4. Rastreiam interações específicas como rolagem de página, cliques de saída, pesquisas e downloads.
Como neste texto estamos abordando o processo manual de proposição de eventos, vamos aprofundar a análise nos outros dois tipos existentes.
Eventos Recomendados: Diferente dos exemplos citados anteriormente, os eventos recomendados também são definidos pelo Google, porém exigem implementação manual. Ao utilizá-los, continuamos garantindo que o GA4 organize os dados de forma otimizada, uma vez que a ferramenta reconhece automaticamente os nomes e atributos recomendados e os incorpora à relatórios nativos.
Exemplos mais comuns de eventos recomendados:
view_item (visualização de um produto);
select_item (seleção de um produto);
add_to_cart (adição de item ao carrinho);
sign_up (criação de conta);
A lista completa deste tipo de evento pode ser encontrada na Central de Ajuda ou na Documentação para Desenvolvedores do próprio Analytics.
Eventos Personalizados: Quando as interações que desejamos mensurar não são contempladas pelos eventos recomendados ou pelos recursos de medição automática, precisamos recorrer à criação de eventos personalizados. Neste formato, é possível definir tanto o nome do evento quanto seus atributos, podendo adaptar a aplicação às características do nosso produto. Esse tipo de evento permite capturar comportamentos únicos e específicos, garantindo flexibilidade sem comprometer a análise.
Exemplos de propostas de eventos personalizados:
open_menu (quando o usuário interage com o menu principal);
apply_filter (uso de filtros em uma listagem ou busca);
view_pricing_section (visualização da área de planos e preços);
cta_click (clique em um botão de chamada para ação);
Atributos dos eventos
Além do nome, cada evento contém atributos que funcionam como “informações complementares” sobre a interação. Um evento nos indica o que aconteceu, enquanto os seus atributos nos detalham como, onde, com quais características isso ocorreu, quem participou dessa ação e em qual contexto.
Os atributos são essenciais para um monitoramento mais preciso e interpretável dos comportamentos do usuário. Por exemplo, o evento add_to_cart indica que algo foi adicionado ao carrinho, porém, apenas com a captura de atributos como item_name e item_price podemos compreender qual produto foi incluído e qual seu valor.
Assim como os eventos, os atributos também podem seguir um padrão (já definidos pelo GA4) ou serem personalizados conforme a necessidade do negócio.
Nesse ponto, é importante saber que existem dois tipos de dados que podem ser adicionados ao evento:
Parâmetros de Evento: Associados à ação que acabou de ocorrer (ex: item_id, item_type, product_section).
Propriedades de Usuário: Relacionados ao usuário que realizou a ação (ex: plan_contracted, client_type).
Tanto os parâmetros de eventos personalizados quanto às propriedades de usuário precisam ser registrados manualmente no GA4 como Dimensões Personalizadas para possibilitar sua análise posterior.
Importante: É fundamental manter padrões ao preencher atributos. Eventos diferentes devem compartilhar as mesmas nomenclaturas de parâmetros e propriedades, permitindo a análise cruzada e uma visão unificada do comportamento do usuário em diferentes áreas do produto.
Captura de dados
Para coletar dados de interação dos usuários, existem diferentes modos de captura disponíveis no GA4, cada um adequado a comportamentos e contextos específicos. Como designers, é fundamental compreendermos a origem do dado para que a proposta de tagueamento seja realista, consistente e alinhada às capacidades reais de implementação do produto.
De forma prática, os eventos podem ser capturados de maneira automática, por configurações de medição, ou de forma customizada, quando envolvem regras de negócio ou dados internos do sistema.
Captura automática e medição aprimorada: A captura automática refere-se aos eventos coletados nativamente pelo GA4, sem necessidade de implementação específica por parte do time de desenvolvimento. Já a medição aprimorada amplia essa coleta por meio de configurações simples na ferramenta, permitindo rastrear interações comuns de navegação.
Nesse contexto, destacam-se alguns tipos de interação como:
Click: ocorre quando o usuário clica em um elemento interativo, como botões, links ou imagens. Em sua forma nativa, o GA4 captura principalmente cliques externos, sendo necessária uma configuração adicional caso o objetivo seja rastrear cliques internos específicos.
View: refere-se à visualização de uma página, tela ou elemento em destaque. Eventos como page_view ou screen_view são coletados automaticamente, enquanto visualizações de componentes específicos — como banners, cards ou seções — podem exigir regras complementares de visibilidade.
Captura customizada (via GTM ou Data Layer): A captura customizada é necessária quando as interações a serem medidas envolvem dados internos do produto, lógica de negócio ou estados que não podem ser inferidos apenas por ações usuário. Nesses casos, o evento é disparado por meio de código, geralmente utilizando uma Data Layer, que é lida pelo Google Tag Manager no envio das informações ao GA4.
Dentro desse modelo, destacam-se interações como:
Input: ocorre quando o usuário insere, confirma ou envia dados, caracterizando ações de maior valor para o negócio. Exemplos mais frequentes deste tipo são: criação de conta, login, contratação de planos, finalização de compra ou cancelamentos.
Exception: utilizado para monitorar erros de validação, falhas de API ou comportamentos inesperados da aplicação.
Como disponibilizar eventos para implementação?
Como abordamos ao longo do texto, o tagueamento é uma das etapas que compõem a entrega de um projeto para desenvolvimento. Essa documentação pode assumir diferentes formatos (tabelas, listas descritivas, textos corridos) e ser produzida em diversas plataformas, como Figma, Notion ou Miro.
Uma das abordagens mais eficientes é o uso de Tag Cards inseridos diretamente no screenflow. Ao estarem posicionados no próprio fluxo de telas, esses cards se tornam mais rastreáveis, pois associam-se diretamente ao ponto de metrificação e além de apresentarem de forma objetiva os detalhes do evento, como nome, método de captura e atributos necessários para a implementação.

Tag cards integrados a um Screenflow
No exemplo acima, podemos observar como o Tag Card se integra diretamente ao fluxo, indicando em que etapa o evento é disparado e a qual tela ele está associado. A seguir, analisaremos a estrutura de um Tag Card e como essas informações são apresentadas em uma proposta de implementação.
Como propor um evento na prática
Com a base teórica estabelecida, vamos avançar para o próximo passo: entender como transformamos esses conceitos em uma proposta prática de evento para o time de desenvolvimento.
Para ilustrar esse processo, apresentamos a seguir algumas de propostas de eventos.
Exemplo 1: Criação de conta

Evento capturando inputs de criação de conta
Ao analisarmos a arquitetura de informações do card, observamos que se trata de um evento recomendado pelo Google, o sign_up.
Além do evento em si, foram adicionados três atributos que tornam a metrificação mais completa, como método de login, ID do cliente e plano escolhido.
Importante: Por se tratar de um evento do tipo input, não precisamos informar se está associado a alguma tela, uma vez que seu disparo depende de um dado do sistema. Em casos em que criação de conta ocorra em produtos multiplataforma ou em diferentes fluxos, e essa informação seja relevante para análise, é recomendado incluir um atributo que indique sua origem.
Exemplo 2 – Acessos ao menu Meu Perfil

Metrificando os acessos à tela Meu Perfil sem a necessidade de evento
Neste cenário, identificamos que não há necessidade de criação de evento.
Quando desejamos medir o número de acessos à um produto que possui apenas um caminho de entrada (como o menu Meu Perfil) não precisamos criar um evento específico. Essas informações podem ser obtidas por meio do evento automático screen_view, que registra as visualizações dessa tela e, consequentemente, seu volume de acessos.
Importante: Caso uma funcionalidade ou página possa ser acessada por múltiplos fluxos, o uso exclusivo do screen_view torna-se insuficiente. Nesses casos, é necessário criar eventos específicos nos pontos de origem, garantindo uma medição correta dos acessos.
Exemplo 3: Comparativo entre itens

Eventos comparando interações de itens em uma mesma tela
O exemplo acima apresenta um carrossel de destaques na home de um app, em que é preciso comparar as interações entre diferentes itens. Para situações como essa, podemos utilizar o evento recomendado select_item, onde os cliques em cada card irão disparar um evento de mesmo nome e atributos, porém com valores distintos, que irão diferenciar um card do outro. Isso nos permite comparar diretamente o desempenho de cada item, tornando a análise mais simples e eficiente.
Importante: nesse evento, não precisamos capturar propriedades do usuário. Apenas os dados relacionados aos itens e à sua posição na lista são suficientes para realizar a comparação entre interações.
Exemplo 4 – Analisar desempenho de item mediante visualizações

Eventos metrificando engajamento do usuário com um item
Quando buscamos analisar as interações com um produto baseado no número de vezes que ele foi exibido ao usuário, recomendamos utilizar dois eventos de forma complementar: view_promotion (visualização do produto) e select_promotion (interação). Por se referirem ao mesmo item, os atributos permanecem iguais no título e na descrição. A diferenciação entre as duas interações ocorre pelo nome do evento e pelo método de captura (view vs. click).
Conclusão
A implementação de eventos no Analytics vai muito além de medir cliques. É nesse momento que, como product designers, indicamos quais dados precisaremos no futuro para embasar nossas decisões e propostas. Trata-se de uma ferramenta concreta para conectar o comportamento das pessoas às decisões de negócio.
O uso consciente de eventos, entendendo quando propor, quando personalizar seus atributos e quando não criar eventos desnecessários, dá significado a cada ação.
É entender que não precisamos medir tudo, mas podemos obter dados concretos sobre tudo o que consideramos essencial.
PS: Caso tenha interesse em conversar sobre tagueamento, ou até mesmo utilizar os Tag Cards apresentados ao longo do artigo, entre em contato comigo via teams ou outlook (mailto:[email protected]).